só borges salva!

minha carne pode ter medo; eu não

10 Julho 2009

"(...) dizia-me: está seguindo você com a vista, os santos seguem você com a vista; Pedro, o que crucificaram de cabeça para baixo, e André, que pregaram com a cruz inclinada - daí, cruz de santo André. Além dessa, há também uma cruz grega, ao lado da cruz latina ou a cruz da Paixão. Nos tapetes, quadros e livros reproduzem cruzes recruzadas, cruzes com âncoras e cruzes graduadas. Eu via cruzada em relevo a cruz em garra, a cruz em âncora e a cruz em trevo. Bela é cruz de Gleven, cobiçada a de Malta e proibida a cruz gamada, a cruz de Gaulle, a cruz de Lorena; nos desastres navais invoca-se a cruz de santo Antônio: crossing the T. Na correntinha a cruz pendente, feia a cruz dos ladrões, pontifícia a cruz do papa, e essa cruz russa que também se designa com a cruz de Lázaro. Também há a Cruz Vermelha. E a Cruz Azul. Os cruzeiros fundem-se, a Cruzada me converteu, as aranhas cruzeiras se devoram entre si, cruzamo-nos nas encruzilhadas, prova crucial, as palavras cruzadas dizem: resolvam-me."

Günter Grass, O Tambor, pág. 163

03 Julho 2009

olha
agora vê se não fuja de mim
não deixe
não solta a minha mão
só pensa que o amor...
... que amor é assim

pensa
que a vida é hoje
e não há mais depois
sente agora
somos só nós dois
mesmo que estejamos sós

veja
que a beleza depende de nós
a alegria depende de nós
e o amor depende de nós
mesmo que sejamos só

29 Junho 2009

"O perigo, se é que existia, decorria da nossa proximidade de uma grande e desenfreada comoção humana. Até uma dor profunda é capaz de, no extremo, transformar-se em violência... ainda que, mais freqüentemente, assuma a forma de apatia..."
Joseph Conrad, No coração das trevas -pág. 84.

24 Junho 2009

"O fluxo da maré corre em vaivém, no seu trabalho constante, pleno de lembranças de homens e barcos por ele transportados ao denscanso do lar ou às batalhas do mar. (...) Conheceu navios e homens. Haviam partido de Deptford, de Greenwinch e Erith - aventureiros e colonos; navios de reis e navios de comerciantes; capitães, almirantes, "atravessadores" tenebrosos do comércio com o Oriente, e "generais" comissionados das frotas das Índias Orientais. No encalço de ouro ou fama, todos haviam fluído por aquela correnteza empunhando a espada, e muitas vezes a tocha, mensageiros poderosos, portadores de centelha do fogo sagrado. Que grandeza não terá flutuado na vazante daquele rio, rumando ao mistério de uma terra desconhecida!... Sonhos de homens, semente de nações, germes de impérios... "

Joseph Conrad, No Coração das Trevas; pág. 24 e 25.

16 Junho 2009

minha mão esquerda está podre
minha mão esquerda está podre.
minha mão esquerda está podre até o pulso
até para lá do pulso.
não adianta eu lavar
nem mesmo cortar fora
nem mesmo arrancar fora
nem mesmo decepar fora
nada disso adianta.
minha mão esquerda está podre
e todas as pessoas já viram.
ela exala o cheiro da sua podridão
(mas não é cheiro de lixo,
nem cheiro de animais mortos,
muito menos fragrâncias ou perfumes:
é um cheiro que nunca existiu,
que não tem precedentes,
um cheiro de nada, mas que existe:
é cheiro de mão esquerda podre).
o doutor confirmou:
minha mão esquerda está podre.
ele disse, no entanto, que cura não há,
remédio não há,
nem solução não há.
só há essa mão podre que não serve para nada.
o padre benzeu a missa,
pediu extrema-unção e disse que mesmo
eu me arrependendo de todos os pecados
vai ficar lá, uma mão esquerda podre.
os políticos trataram meu caso com extremo cuidado,
caso de segurança nacional.
uma mão esquerda podre é muito perigosa.
mas logo a minha, que não sei o que fazer com ela!
minha mão esquerda está podre.
ela não dói, não arde, não parece.
antes espalhasse uma doença,
antes me desse poder de tocar as pessoas,
antes me concedesse direitos,
antes fosse fruto de prazer.
não. é só uma mão esquerda podre,
dessas que se espalham por aí a cada dia
e que a gente não percebe
que todo mundo percebe
até que seja a nossa.
minha mão esquerda está podre
e não há o que se fazer.
não posso arrancá-la fora,
não posso nada.
não posso me arrepender,
não devo me revoltar,
pegar em armas não posso
pois minha mão podre não suporta.
acariciar a pela da amada eu não posso
pois a amada não suporta.
eu não tenho nada,
só uma mão esquerda podre
e não há o que se fazer.

12 Junho 2009

tic tac
ainda são 7h40
o relógio na cadeia
ainda em camera lenta.

tique e taque ainda são sete e quarenta o relógio na cadeia anda em camera lenta.

09 Junho 2009

Alguns artifícios não raros são mecanismos para que o fantástico aconteça: a) uma festa de carnaval; b) uma terra distante e desconhecida; c) a boca de aventureiros; d) a reunião em propriedade de estranhos; e) uma noite de sonhos intranquilos; f) a própria realidade distorcida; g) as tramas detetivescas ou policiais; h) as febres noturnas e as doenças; i) o mar; j) a pobreza; etc.
Bioy Casares e Schnitlzer usam noites misteriosas (e de bebedeira) em festas; os narradores de histórias presenciadas em locais de nomes muitas vezes impronunciáveis estão em Calvino; as terras de hábitos estranhos, quase confundidos com acontecimentos fantásticos (e com seres extraordinários), são temas de Swift, Kipling, Borges; até nos mais prosaicos e realistas, a narração produz situações irreais, como em Joyce ou Faulkner. Poe transforma um macaco gigante em um cruel assassino; Kafka faz de um homem comum um inseto; Garcia Marquez torna uma simples pedra de gelo em algo de outro mundo; Thomas Mann faz um artista ver o diabo; Dostoievski ampara em teorias o motivo de um crime sórdido cometido por um homem honrado, que anda por aí feito um anjo pálido.
A história de Ibraim Camargo, ao contrário das citadas, creio nada ter de fantástica, misteriosa, sobrenatural ou extraordinária - o adjetivo não importa. Ouvi-a de sua própria boca, em bar tomando um trago, durante o período em que cobria um conflito no Sul extremo e só pensava em Lucia. No balcão, conversamos algumas outras coisas desinteressantes até que ele começasse a relatar os acontecimentos de uma tarde passada. Não nos conhecíamos até aquela noite. Não sei por que me elegeu para ouví-los (se confiou em mim ou se me julgou tolo demais). A partir de certo momento, ele me narrou:
''Eu amava uma mulher. Marcamos pela manhã um encontro em sua casa no final da tarde. Ainda lembro-me dela me jurando amor. Mais tarde, passaria para pegá-la. Não sem emoção de sua lembrança, sai de casa. Em meu caminho, começou a chover estrupícios. Eu não tinha automóvel; maldisse a chuva e minha vida. Parei debaixo de uma tenda até que a chuva terminasse. Não sei contabilizar quanto tempo se passou. Quando parou de chover, um sol mais forte que o comum para o horário se abriu. Considerei que aquilo era normal depois negras chuvas e que, de certa forma, representava a esperança. Corri até o endereço dela. Entrei sem bater. No local, havia muita gente desconhecida. No afã de vê-la, não estranhei. Fui me embrenhando em meio as pessoas até chegar mais perto. Todos me olhavam com reprovação. Avistei mais a frente o rosto da bem amada. Fui até ela. Antes, sobre sua cabeça, vi que a imagem do Crucificado vigiava o salão. Era uma igreja. Quando percebi melhor, ela se casava com outro homem''.
Ficou em silêncio. Diante da minha mudez que não se interrompia, citou (eu só reconheceria depois): ''Todo o tempo ficamos rindo dos desconfortos, sem entender que eram os dias mais felizes da nossa vida''.

02 Junho 2009

Três cafés para dois

1
Eu sempre amei Lucia. Amei Lucia ainda depois do dia em que ela disse que não poderia se demorar muito conversando comigo. Não sei o que desse amor e conversa influiu em minha vida, em meu modo de sorrir ou de ler. Na escola, eu arrepiava todo quando tocava sua mão para pegar emprestada a borracha (eu não tinha borracha); ela não percebia. Eu sonhava com seus dedos finos, o pescoço magro, o ventre reto - com os pequenos seios que começam a surgir. O duro nome dela -
Lucia - era pronunciado como um portenho o faria, como o acento agudo no "i" e não no "u", como é comum em português; de modo então que demorei a descobri que se dizia Lucía e não Lúcia.
Parecia errado que este nome de velha lhe fosse destinado; parecia que as letras articuladas do nome não poderia pertencer àquela menina quase mimada, vestida de renda, doce, educada; quase um clichê ou uma personagem. Eu não percebia isso. Eu amava Lucia desde antes de começarmos a namorar.
Quando ainda nem pegava em sua mão, já fazíamos planos: a) terminar o curso; b) casar na igreja; c) mudar para a casa grande de vovó, que logo iria morrer; d) ter um monte de filhos. Eu prometia que me tornaria jornalista, culto, autor de livros argentinos (acreditava na proeza da mediocridade que eu escrevia); Lucia me dizia que gostaria das coisas da moda, que decoraria a casa com margaridas e que serviria chá em xícaras do início do século. Seríamos felizes, em nossos planos: uma felicidade sólida, burguesa, perto da família, amparada.
Ao sinal de qualquer empecilho, eu prometia: "Lucia, você vai ver, um dia ainda seremos muito felizes; nos casaremos e teremos filhos; só eu te posso trazer alegria". Eu não percebia a monstruosidade de meus dizeres; eu... que sempre amei Lucia. Tudo o que não era Lucia me entediava. Nossos planos seguiam em linha reta. Tudo se encaminhara: eu me tornara jornalista; Lucia estudara francês.
Seguimos nosso namoro. Os tempos eram outros. Não nos beijávamos em público; falávamos sempre à distância; não nos permitíamos a intimidades na frente das pessoas. Em pouco tempo nos casaríamos, Lucia e eu.

2
Bio era o apelido de Fabrício Adolpho Caeser desde a infância, quando nos conhecemos. Era uma contrição de seu nome (bricio, bicio, bio) nascida no seio familiar. Era um homem vulgar como o apelido assumido por ele, como suas roupas; vulgar até no modo como falava. Nunca cheguei a considerar Bio um amigo; nunca fomos rivais. Conheço a sentença que diz que um homem acaba por assemelhar-se a seus inimigos (ou algo perto disso), no entanto nunca a considerei verdadeira.
Bio era de boa família; ele não. Estava sempre em nosso meio. Frequentava nossas festas, nossos círculos literários, nossos cafés de final de tarde. Como não poderia deixar de ser, estava na festa de recepção de um cineasta francês que estava na cidade por aqueles dias. A festa era em minha casa (me arrependi de tê-la oferecido; eu nunca gostei de cinema ou cineastas). Bio falou um francês exemplar; citou livros. Lucia se divertia com outras mulheres; não recordo do que falavam. Certo momento, olhou-me e sorriu. Reconheci, com ambição, ternura na combinação de seus dentes a mostra e olhos semi-cerrados.
Bio se aproximou de mim. Sua segurança na fala, nos gestos, no sorrir, produziam em mim uma inveja cega (uma inveja que não queria sentir, mas que não procurava evitar). Era como se em certos momentos eu quisesse assumir a posição de Bio, mesmo ele me dando asco. Falou de Lucia em um tom que me pareceu demasiado elogioso. Perguntou se eu havia percebido como ela desabrochara; falava como se a elogiasse para si mesmo; contou uma história nossa de infância. Eu não consegui seguir sua história; não havia entendido seus elogios a Lucia. Com um ar de quem falara algo sem importância, continuou a conversa indagando se eu conhecia aqueles versos de Blake sobre tigres; respondi que sim. Ele me pediu que os achasse na biblioteca. Entendi aquilo como uma forma de me tirar da sala. Para não ser indelicado, fui. Sabia onde estava o livro, fui direto até ele. Estranhamente, não estava lá. Procurei rapidamente. Não encontrei. Tudo o que não era Lucia, e até a literatura, entediava-me.
Na sala, as pessoas pareciam se divertir. Passei os olhos e não encontrei Lucia. A roda em que estava com outras mulheres já havia se dissipado. Tive ódio; este me fez esquecer de Bio e Blake. Circulei, primeiro com os olhos, para ver se a encontrava. Ela estava na outra sala, a de jantar, perto da janela. Sorria. Aproximei-me e percebi que Lucia conversava com Bio. Pouco antes de eu chegar, tive a impressão de que ele lhe afagava os cabelos; não pude me certificar, pois passaram em minha frente. Quando cheguei, não se calaram.
Falavam de uma notícia banal. Bio me perguntou sobre o livro. Respondi, cordialmente, que não o encontrara. "Outro momento passo para buscá-lo", disse Bio. "Qual livro?", cortou Lucia. Bio lhe explicou a história. "Ah...", respondeu ela, colocando a mão sobre o ombro dele. Ainda falamos coisas que minha mente não consegue recordar quando Lucia anunciou que iria embora. "Eu a levo", disse Bio, dirigindo-se a ela e ignorando a minha presença. "Também vou", completei, com a face em chamas.

3
Eu estava de volta. Logo depois da festa em minha casa, fui obrigado a me retirar da cidade por alguns dias. Fora enviado ao Sul extremo para cobrir um conflito. O que deveria durar apenas uma semana acabou por se prolongar por meses ou anos. Era para ser o contrário, mas a saudade de Lucia me impediu de contabilizar por quanto tempo eu ficara fora. Durante esse tempo, trabalhei sem interesse, relatando as mortes, as decisões políticas, as mazelas do povo como meros anacronismos (a estranheza da terra, guardei para mim). Cada gesto alheio, eu presenciava como um sinal da espera de Lucia. Não via hora de revê-la. Estranhamente, ela não respondia minhas cartas.
Desembarquei e tomei uma condução para casa. Antes de entrar, passei no comércio ao lado de casa para comprar água, pão, café e uma peça de presunto. O tempo ali não parecia ter passado. O dono da venda me reconheceu, mesmo por trás da barba cerrada. Indagou coisas que respondi sem sorrir. Guardara estes para Lucia. Antes de entrar em casa, tive ainda a impressão de tê-la visto na janela, como no dia em que conversara com Bio. O vento frio dissipou o pensamento.
Subi; tomei banho; comi; meus gestos eram mecânicos. Pensei no quanto pensara em Lucia enquanto estivera fora: eram repetições, repetições, repetições... Imaginara por meses aquele momento que vivia, pensando em todas as combinações possíveis de como ele sucederia. Decidi telefonar à casa de Lucia para avisar que estava na cidade. Ela prometeu me visitar, mas só no final da tarde. Tentei ler enquanto esperava; o máximo que consegui foi folhear um volume de Beckett que prenunciava o que estava por vir.
Por sorte, não esperei em vão. Preparei café para nós. Quando Lucia tocou a campanhia, meu corpo se agitou por inteiro; não posso esconder que o que senti pode ser chamado felicidade. Beijou-me antes que eu falasse, mas no rosto (ainda guarda o mesmo respeito de antes, pensei). Perguntou-me como estava e disse que não poderia se prolongar: alguém a esperava lá embaixo. Vi pela janela, a mesma de há tempos, que Bio estava impaciente enquanto segurava uma criança de colo.
Quando ela saiu, um livro estava aberto sobre a mesa de centro; fora Lucia quem o deixara; era o poema de Blake; li-o. Não sem terror, resignação e medo, entendi que o intruso era eu, não Bio. O corpo estranho sempre fora eu. Lucia nunca fora a minha namorada, nunca fizera planos comigo, nunca me esperara durante o tempo que estive fora; todas estas coisas eram dedicadas a Bio. Nossa pouca intimidade, que eu interpretava como respeito, era um sinal que não percebi. Na verdade, o vulgar era eu. Lucia nunca me amara e tinha pena de mim; eu confundira esta pena com afeto. No dia da festa em minha casa, era Bio quem deveria levá-la para casa. Entendi que o mundo produz duplicidades (embora eu não entenda estas terríveis simetrias); que o ser humano é monstruoso como as feras e que viver, para muitos, é um destino atroz.

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publicados na folha:

21 Maio 2009

"A eternidade pode parecer atroz ao espectador; é satisfatória para seus protagonistas. Livres de más notícias e de enfermidades, vivem sempre como se fosse a primeira vez, sem recordar as anteriores. Além disso, com as interrupções impostas pelo regime das marés, a repetição não é implacável.
Acostumado a ver uma vida que se repete, a minha me parece irremediavelmente casual. As promessas de melhoria são fúteis: não tenho uma próxima vez, cada momento é único, distinto, e muitos se perdem em descuidos. É bem verdade que, para as imagens, tampouco existe uma próxima vez (todas são iguais à primeira)."

Adolfo Bioy Casares, A invenção de Morel - pág. 102.

15 Maio 2009

Solução
A solução é fogo.
No mais belo texto já escrito por um homem, Borges diz que as chamas das ruínas circulares não queimam as carnes do seres sonhados.
Solução é fogo: fogo do amor, fogo do inferno.
Estamos sós, a bem amada e eu. Comamos. Filés, molhos, pepinos em conserva. Queijos: branco, brie, gorgonzola. Comamos até nossos estômagos não aguentarem mais, até explodirmos para comer mais. É o pecado da gula.
A bem amada. Estamos sós. Ela sai do banho e, só de toalha, espero-a com latas de cerveja, tequila, uísque (duas pedras de gelo e coca-cola); vinho não. Embebedo-a e tomo seu corpo para mim. Sorvo tudo dela. Abandono-a ali mesmo, desfalecida, corpo aberto e nu, sujeita as intempéries do tempo e do mal. É minha forma de protegê-la.
Coloco um disco. No selo central do vinil, o nome "João" grafado em letras garrafais, cerifadas, gira, gira, gira, gira... gira até enroscar. A bem amada gira e se enrosca em meu pescoço. Afasto-a. Pego o violão e toco para ela "Saudades da Bahia".
Estamos sós. A bem amada e eu. Em algum momento indefinido nossos corpos ardem de uma febre sem precedentes. Suemos. Suemos pelos poros, pelos olhos, pelos cílios, até que entremos em delírios antes nunca vistos. É isto que quero de você, bem amada...
Para alegrá-la, mandei instalar o Corpo de Bombeiros ao lado de casa. As sirenes passam por nossa janela tocando uma valsa. Como são altos os prédios, as estrelas desaparecem no cosmo e a bem amada ama tanto as estrelas...! De modo, então, que construí a mais longa avenida para que ela, ao sair na janela, sempre possa ver luzinhas piscando em noites de chuva. O asfalto molhado refelte o vermelho do farol de freio feito os vagalumes de Terra Rica. - Ah, se os tivesse visto, bem amada, você ia adorar...
Para que ela durma protegida da maldade do mundo, dos raios ultravioletas, de balas de pipoca, beijo todas as noites seus olhos; faço vigília a seu lado; seguro seus seios quando ela treme de medo; conto mentiras, dizendo que sou o homem mais forte, o mais belo, o mais valoroso, o melhor poeta, e que somente minhas mãos e meus versos bastam para que nada na vida a atinja. Com um sorriso satisfeito ela acredita e dorme como uma menina grande. Só então posso descansar um pouco, pronto para despertá-la, enlaçando-a com minhas pernas pesadas. Acordo-a aos poucos e ela se ilude, pensando que despertou sozinha.
No mais belo texto já escrito por um homem, Borges fala do fogo das ruínas circulares. De certo modo, sou um pouco ruína e ela é o ser sonhado. A bem amada, pois bem, consome-se do meu fogo, arde de dor e delícia, transforma-se em cinzas: ela, cinza, eu, ruína. Na mágica da ficção, porém, renascemos (e renasçamos!) refeitos todos os dias, numa manhã como esta.

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hoje, na folha,

12 Maio 2009

Te admiro, mulher, com o pau em riste
Te admiro, mulher, com o pau em riste,
mais alegre do que triste,
como se contemplasse uma orgia
de hipopótamos com ornitorrincos:
uma ode aos ricos fincos.

De segunda-a-segunda
roço-te a bunda
e no domingo choramingo
o leite do teu sexo:
a arte do nexo
que no entanto exclui
as instâncias do complexo.

Lembro-me de ti perguntado se eu lia
e eu dizia
Modéstia a parte eu leio pra cacete,
eu tiro onda, eu sou foda,
mas foda mesmo é o que minha mente fantasia ainda:
no meio, entre a vista linda,
a gente trepando no meio
da mesa redonda e eu no teu meio.

Eu rezo para que te tornes logo
uma Bovary tropical,
que olvides o poeta, a roda, a moda
e que só pense numa grandiosa foda
que nos livre de todo mal,
amém.

Quero que me dê um bocado do teu corpo,
copo onde bebo tua carne,
para encarnarmos logo as figuras dum poema
dum Boca do Inferno ou dum Bocage.

No calor da guerra e da bebida,
conto as ninfas do amor.
Ao total são nove.
Nove dadeiras entre as quais quero uma apenas:
a duro pau e a duras penas.
Tempo de cão
O cachorro está cansado. Quando respira, na sua barriga surgem ossos. Tosse, tosse, tosse. Tosse de cão. Não tem tempo, não se lembra de passado; não imagina futuros. Não tem mágoa, trauma; não sofre. Não tem ternura, afeto; não ama. Para o cão só existe o momento.
O cão está encolhido em um canto. O chão está molhado. O cão está encostado em uma parede verde clara. A parede está descascada, velha; tem mofo espalhado por ela. Camadas de tintas de outros tempos surgem por debaixo da tinta verde. O cão não percebe. Está encolhido no canto. A água molha o cão. O cão não se incomoda. O tempo está abafado, úmido; é verão.
Homens suam, fumam, bebem cerveja no quintal. Homens falam, riem, choram na varanda. O cão não entende. O cão está encolhido no canto, debaixo da parede de há tempos. A costela do cão surge quando ele tosse. Quando respira, também ficam evidentes suas doenças na pele. O cão tem sarna; o pêlo ralo, gasto. São micoses, são verrugas, são feridas. O cão as lambe.
O cão não sabe. Com a pata traseira, coça uma região entre a própria pata traseira e a barriga. A coceira passa. O cão fecha novamente os olhos. Está deitado em um canto há muito tempo. Depois ele se levanta e late. Late, late. Come um pedaço de gordura que lhe jogam. Tosse. Late.
O cão volta a se deitar, dessa vez perto de um vaso de samambaia. As folhas tocam sua ferida. Ele bate na folha. Ela se mexe. Volta para o mesmo lugar. O cão não se incomoda. Já está dormindo.
Um dos homens se levanta. Pega uma ripa encostada no pilar. Ela tem um prego na ponta. Os homens riem. Ele espera um tempo e atira a madeira contra o cão. Não acerta o cão, mas o assusta. O cão sente medo, terror. Ele se contrai, levanta-se rápido, as patas flutuam; agita-se; corre dois metros. Ameaça latir, ameaça morder. Tosse. Tosse. Coça a micose. Lambe-se. Esquece.
O cão está cansado. Deita-se. Quando respira, sua barriga vira costela. Tosse, tosse, tosse. Tosse de cão. Não tem tempo, não recorda passados; não ilude futuros. Não tem mágoa, miséria, trauma. Não tem ternura, remorso, afeto. O cão existe.

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na folha,
Esquerda festiva
Nasci canhoto. Não sei o motivo. Chuto com a perna esquerda e uso a mão esquerda para tudo. Sempre fui minoria. Os canhotos, nesta Redação, somos apenas dois, em mais de 30 profissionais. A essência de ser canhoto é principalmente escrever com a mão esquerda, não saber fazer o resto dos trabalhos manuais e praticamente esquecer que se tem uma mão direita.
O canhoto é antes de tudo um deslocado. O charme de pertencer à minoria tem seu preço: viver em um mundo que não é feito para você. É ter certos traumas engraçados, como nos melhores filmes de humor negro. "A mão direita é a mão que a gente escreve", diz no primeiro dia de aula a professora magrinha do primário, com sua voz de pássaro.
Quase sempre, na sala de 30, um canhoto solitário levanta a mão esquerda, errando desde já o princípio da vida. "Não, você é diferente; é com a outra mão", diz, sem paciência, a professorinha, abaixando nossa mão esquerda.
Na outra aula, a tesoura. Não há linha reta que assim permaneça se cortada por um canhoto. É preciso virar a tesoura e fazer do ato de cortar uma simples folha de papel o trabalho de um malabarista de um circo pobre de interior, que se apresenta sem graça ou leveza. Eu sempre evitei as tesouras. Assim como evitei (e evito) os abridores da lata. A dificuldade de abrir uma lata com a mão esquerda é enorme.
Até à mesa, nossos braços ficam se chocando com o de qualquer pessoa, já que a maioria leva a comida à boca com a mão direita - do outro lado tem a gente, insistindo em fazer o contrário. Também dizem que mulheres canhotas não conseguem fazer tricô e crochê.
Ser canhoto é ser de esquerda desde o princípio - mas uma esquerda festiva, que ri de si própria por saber que não vai dar certo (e bebe para esquecer). Tenho um orgulho silencioso de ser canhoto. Sei que todo mundo queria ser canhoto. Por fim, defendo as cotas para canhotos: um pagamento pelo trauma de ficar anos tendo de fugir de tesouras, abridores, trabalhos práticos. Quando quiser xingar alguém, chame-o de canhoto.

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na folha,

30 Abril 2009

moluscos, crustáceos, sal marinho

O vento sopra um ar salgado vindo do mar -
ar marinho que amarga a boca:
beijo você com esse gosto,
com a língua de molusco,
sorvo o molusco do meio
das tuas pernas,
tua concha,
tuas pérolas.
Meus braços são como as ventosas de tentáculos de polvos;
teu corpo é um navio naufragado.

O que te sinto é vento que traz areia -
ar marítimo que cega os olhos:
areia que suja a casa,
que mata o monstro,
que gruda em teus cabelos dourados de luz.
A maresia vem trazida pelo vento gelado, mesmo com sol.
Ela influencia as ondas de rádio,
mofa as roupas no armário,
destrói as grades que proíbem teu corpo.

Do mar que sopra vento e sal chegam os piratas.
Naus os trazem, maus (olhos de vidro, pernas de pau).
Saqueio teu rosto como os piratas ao tesouro.
Tomo vinho em barris, como carne vermelha crua.
Te ameaço com meu ferro;
te amarro ao pé do coqueiro com cordas e nós
aprendidos de um marujo que não se prende a terra alguma.
Lembre-se: quem dá adeus rouba dos pobres.

Os pescadores arrancam as cabeças de camarão com os dedos.
Os marinheiros se despedem das sereias com um beijo apaixonado: nunca mais se verão.
Os caranguejos ainda tentam beliscar a mão do homem antes de serem capturados.
Você não enxerga, mas estes são símbolos
da crueldade que se dão invariavelmente todos os dias.
Também o são navios pesqueiros
quando atracam no cais.
Toneladas de peixes fedendo são descarregados das redes.
Essa é a comida de milhares;
você é meu alimento.
Nos cascos de embarcações atracadas ficam grudadas
algas verdes,
conchas sem valor,
parasitas marinhos,
pequenos moluscos,
grandes crustáceos,
corais arrancados,
anéis de lulas esquartejadas,
pernas de polvos decepados,
pedaços de pinças de siri;
cetáceos gigantes rodeiam os cascos, invisíveis.

O sol doura minha pele de mouro.
Os raios penetram
em meus olhos,
no teu sexo,
no fundo do oceano.
Eu mastigo essa luz como se ela fosse a força
que sai de você.
Esse sol seca tudo o que é molhado,
mas a pele do teu braço ainda tem gosto de sal,
quando o lambo.
Tudo é superficialmente amarelo e profundamente azul.
Por fim, as ondas sopram um vento
que derruba cabeças de santos.
As imagens caem no chão e se quebram (as cabeças rolam antes de se partirem):
tudo se quebra e não resta
nada na velha igreja litorânea, à beira da praia -
só um cão sarnento, magrelo,
fumando do lado de fora.

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(versão em versos do texto abaixo)

24 Abril 2009

Moluscos, crustáceos, sal marinho
O vento sopra um ar salgado vindo do mar - ar marinho que amarga a boca: beijo você com esse gosto, com a língua de molusco, sorvo o molusco do meio das tuas pernas, tua concha, tuas pérolas. Meus braços são como as ventosas de tentáculos de polvos; teu corpo é um navio naufragado.
O que te sinto é vento que traz areia - ar marítimo que cega os olhos: areia que suja a casa, que mata o monstro, que gruda em teus cabelos dourados de luz. A maresia vem trazida pelo vento gelado, mesmo com sol. Ela influencia as ondas de rádio, mofa as roupas no armário, destrói as grades que proíbem teu corpo.
Do mar que sopra vento e sal chegam os piratas. Naus os trazem, maus (olhos de vidro, pernas de pau). Saqueio teu rosto como os piratas ao tesouro. Tomo vinho em barris, como carne vermelha crua. Te ameaço com meu ferro; te amarro ao pé do coqueiro com cordas e nós aprendidos de um marujo que não se prende a terra alguma. Lembre-se: quem dá adeus rouba dos pobres.
Os pescadores arrancam as cabeças de camarão com os dedos. Os marinheiros se despedem das sereias com um beijo apaixonado: nunca mais se verão. Os caranguejos ainda tentam beliscar a mão do homem antes de serem capturados. Você não enxerga, mas estes são símbolos da crueldade que se dão invariavelmente todos os dias.
Também o são navios pesqueiros quando atracam no cais. Toneladas de peixes fedendo são descarregados das redes. Essa é a comida de milhares; você é meu alimento. Nos cascos de embarcações atracadas ficam grudadas algas verdes, conchas sem valor, parasitas marinhos, pequenos moluscos, grandes crustáceos, corais arrancados, anéis de lulas esquartejadas, pernas de polvos decepados, pedaços de pinças de siri; cetáceos gigantes rodeiam os cascos, invisíveis.
O sol doura minha pele de mouro. Os raios penetram em meus olhos, no teu sexo, no fundo do oceano. Eu mastigo essa luz como se ela fosse a força que sai de você. Esse sol seca tudo o que é molhado, mas a pele do teu braço ainda tem gosto de sal, quando o lambo. Tudo é superficialmente amarelo e profundamente azul.
Por fim, as ondas sopram um vento que derruba cabeças de santos. As imagens caem no chão e se quebram (as cabeças rolam antes de se partirem): tudo se quebra e não resta nada na velha igreja litorânea, à beira da praia - só um cão sarnento, magrelo, fumando do lado de fora.

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na folha, hoje,

08 Abril 2009

A era dos extremos
A história é verdade. Na bilheteria, o rapaz com a camiseta cafona com o logotipo cafona do Festival de Curitiba - que estranhamente não traz a palavra "teatro" em seu nome (a mim não me importa se traz ou não) - se assustou com o homem monstruoso em sua frente. Não que a gordura do homem gordo o transformasse em monstro e nem sua monstruosidade gorda fosse o motivo do susto - não fora um susto apavorado ou estético. O motivo do abismo boquiaberto do vendedor de ingresso para o Festival de Curitiba (que estranhamente não traz a palavra "teatro", mas tanto faz) foi a quantidade de ingressos comprados pelo homem gordo prostrado em sua frente.
Pagou no cartão de crédito com o desconto do banco e saiu balançando discretamente os braços redondos - na verdade, seu tamanho não permitiria movimentos que não aqueles. O homem que vendera os ingressos ainda fixou o olhar nos dedos roliços, as juntos ocultas, que segurava os ingressos - quantos? isso não podemos saber. Depois ainda viu uma faixa preta de gordura sob pescoço do monstro, que desapareceu na escada rolante.
Ainda abismado, o vendedor calculou que ele comprara ingressos para todas as peças de teatro que uma única pessoa poderia assistir. De fato, fora isso mesmo - e isso é o máximo que podemos saber. Os motivos que resultaram na grande compra - paixão pelo teatro? tara por canelas magras das atrizes? tesão por barbas de homem crescendo? compra para amigos, família? - ah, isso não podemos ter certeza.
Dos 300 espetáculos, o gordo de dedos roliços compareceu em vários deles - quantos? não é necessário dizer que não sabemos. Em todos suou debaixo dos braços; nas dobras superior e traseira das articulações dos cotovelos e dos joelhos; na enorme papada; atrás da orelha; na testa, logo acima das sobrancelhas; nas dobras do bucho; embaixo do nariz, sobre o lábio superior, formando um bigodinho de suor; no rego. Não nos será difícil imaginar que a fera sentiu falta do inverno e que até praguejaria contra o calor se não fosse homem conformado.
Saindo dos espetáculos, também não pensou que Shakespeare talvez fosse mesmo gênio para que conseguisse perpetuar a eterna tragédia anunciada que é uma peça de teatro. Nenhum espetáculo marcou a vida do besta-fera. Sua presença, no entanto, marcou a vida daqueles que sentaram próximos (ou nem tanto) dele. O grande gordo roncou, invariavelmente, em todas as peças. O barulho que saía dele - e que parecia exalar mais dos póros que das cavidades nasais - disputava espaço com os pobres atores, que lutavam para parecer convincentes (ou menos ruins que de fato eram). A razão do homem comprar entrada para um sem número de espetáculos e dormir, religiosamente, em todos eles? Isso não saberemos nunca.
Pobre de nós. Ainda bem que não montaram "Esperando Godot", o mais importante texto já escrito no breve século XX.

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na folha, hoje,

04 Abril 2009

disco

Número 1 - Mário Lago-Bendito Lacerda
Ninguém me ama - Antônio Maria-Fernando Lobo
Chuvas de verão - Fernando Lobo
Novo Amor - Ismael Silva
Maria Bethânia - Capiba
Cordeiro de Nanã - Mateus-Dadinho
Pra dizer adeus - Edu Lobo-Torquato Neto
Resto de amor - Vicente Mattos-Carlito
Me deixa em paz - Monsueto-Aírton Amorim
Quem chora sempre tem razão - Nélson Cavaquinho-Guilherme de Brito
Atiraste uma pedra - Herivelto Martins-David Nasser
Loucura - Lupicínio Rodrigues

31 Março 2009

sambinha
a gente sai do samba
mas o samba não sai da gente
quem acha que ser contente
é melhor do que a tristeza
não sabe da proeza
que é não se ter razão
ter certeza que não se sabe
das coisas do coração

se a alegria me persegue
o meu peito já não sente
a gente sai do samba
mas o samba segue a gente
quem tenta, não consegue
acreditar, mesmo que se negue,
que a vida é um pouco amor
m as também bastante dor

18 Março 2009

O problema da personagem
O que me consola nessa vida é que cada pessoa também é triste a sua maneira. A mulher do mágico, a mulher do médico, a mulher do mítico - e eles próprios - cada um melancólico e triste, formando uma legião de tristes. Do meu apartamento, vejo as pessoas sozinhas no prédio da frente. Nas melhores horas - as de sorte - flagro todas as pessoas fazendo a mesma coisa. Sempre estão sozinhas, em frente a seus computadores. A cidade tem dois milhões de habitantes, mas não precisava tanto.
Vejo isso e penso no Jamaica, por exemplo. Não sei como se chama, quantos anos tem, se tem pai ou muito ódio no coração. Ainda que eu não saiba nada dele, sei de muita coisa, pois cruzo com ele todos os dias, a caminho do trabalho (eu do meu, o Jamaica do dele). O Jamaica trabalha em uma banquinha de jogo do bicho, penso eu. Eu, no meu íntimo, o apelidei de Jamaica por causa dos longos dread locks que conserva. Na parede do fundo da sua banquinha, existem dois ou três desenhos de Bob Marley, feitos à lapis. Fico imaginando se terá sido o próprio Jamaica o autor dos péssimos traços em suas horas de tédio. Se sim, penso que aquele rapaz de dread locks é feito um adolescente imaturo, fazendo desenhos do ídolo para colar na parede. A mim me entristece pensar que o Jamaica acredita no ídolo. Ele deveria queimar os próprios dreads, comer os desenhos, quebrar seus discos. Digo isso pois, mesmo sem conhecer o Jamaica, tenho simpatia e ternura por ele e seu olhar tristonho.
Todo os dias cruzo com o Jamaica, às 8h32 da manhã. Ou ele está descendo do ônibus, ou abrindo sua banquinha, ou já sentado lá dentro - tudo depende de nossos atrasos. Mesmo nos dias quentes, o Jamaica amanhece com um moletom do Planet Hollywood São Francisco. Isso me dá fadiga, mas penso que ele talvez use o moletom como estratégia para esconder o corpo gordo. Há poucas semanas, o Jamaica pintou as pontas de seus dread locks com as cores da bandeira da Jamaica, cada tufo uma cor. Eu aqui pensando que ele devia incendiar os próprios cabelos e ele me apronta uma dessa. - Você não tem jeito, Jamaica!
Sei que ele me vê. Não quero saber o que pensa de mim. Também não quero que ele saiba o que escrevo dele, mesmo publicando no jornal. Espero que não leia; espero que não se identifique. O leitor pode pensar que sou cruel com o Jamaica em muitos pontos. Embora real, o Jamaica é uma personagem meu. À personagens, não se faz concessão. Se as deixar livres, elas logo estão mandando na gente.
(... mas eu tenho um fraco por personagens, sempre as perdoo. O Jamaica é apenas uma personagem, mas antes disso é um homem. Um homem com um olhar triste. Um dia ainda entro na sua banquinha e faço um jogo.)

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na folha, ontem...

13 Março 2009

O problema do texto
Comecei este texto inúmeras vezes, por dias seguidos. Terça-feira ele se chamava "Mais forte" e começava com a linda frase "Eu que nunca lutei por nada..."; no dia seguinte, não tinha nome e parodiava alguns versos de Manuel Bandeira ("Sei que tem gente que bebe cianureto e toma cocaína, outros sorvem tristeza ou sugam alegria", dizia o texto); sua idéia inicial, antes de tudo isso, era - e ainda é - tratar da eterna necessidade de dizer sim à vida, usando trechos de uma antiga crônica de Vinícius de Moraes, um trecho de "Morte em Veneza" e alguma coisa mais que não me recordo - ainda não escrevi pois não consegui encontrar nas obras completas de Vinícius a passagem que quero.
Note: a frase acima é composta de um único período. Para os críticos (se para mim eles houvessem) isso pode representar um erro ou soar como uma cópia malfadada de Proust, este, sim, escritor de períodos que duram parágrafos); para mim, no entanto, a frase que abre este texto é uma metáfora da vida. A palavra "idéia", escrita à moda antiga, com acento agudo, representa a indução ao erro; a citação dos autores representa a verdade da minha fala; a reprodução de textos que não se confirmaram ou não continuam representa a História - minha e da humanidade; o verbo que abre o período representa o futuro; a frase em si, com um único ponto final, quer dizer a Vida, que é um rio corrente, mas com paus, pedras e peixes.
Cada palavra ganha, além do significado contido no período, um ou infinitos significados, de modo que a primeira frase desse texto é o mundo. Toda palavra contém a ideia geral do seu conceito. Lembro-me de Borges falando sobre isso; a palavra "tigre" não representa apenas um animal com a pele de ouro rasgada de sulcos negros e gengiva com a mesma cor do sexo das mulheres. Esta simples palavra (tigre) quer dizer todos os tigres que existiram, seus descendentes e herdeiros; as planícies por onde os felinos correm; as pessoas e bichos devoradas por esses tigres; a existência do choro da mãe de quem foi morto por um tigre e os urubus que devoram as feras já em estado de decomposição.
Comecei a escrever este texto para falar do Jamaica, que eu nem conheço. Meu espaço, contudo, acabou. Fica outra promessa.
P.S.: No momento em que tamborilo esse teclado velho - pléc, péc, péqui - a bem amada está longe, demora a voltar (o tempo corre diferente nos negócios do amor) e isso me comove - assim como me comove a lembrança daqueles versos do Pablo Neruda em que ele promete, naquela noite, escrever os versos mais bonitos do mundo, tão bonitos quanto os que escreve naquele momento. A metalinguagem está completa.

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na folha, hoje,

11 Março 2009

oasis em curitiba?
ainda bem que eu vou ver kraftwerk daqui 10 dias.

10 Março 2009

caminhos desfeitos

hoje, segues nova.
remoçou-te em meu leito.
agora, na hora da partida,
nossos olhos, nossos peitos,
não são sopros de vida
e sim caminhos desfeitos.
vai-te, segues nova
e não te partas em dor.
agora que estais farta
saciada do vento do amor
o incomunicável nos aparta
como as palavras do Senhor.
sim, sejas moça.
não penses que os anos
consumiram o teu melhor.
em mim, não há danos,
só um pouco de desamor.
isso, novos planos.
segues nova na partida.
de novo, o novo nos habita.

09 Março 2009

off-mim
os modernistas, chatongos (exceto bandeira), quase fizeram a gente descrer nos parnasianos (augusto dos anjos é poesia de moleque). olavo bilac, neste seu poema (1888) que cita o primeiro verso do livro de dante no título, prova o contrário.

Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E a alma de sonhos povoada eu tinha...

E paramos de súbito na estrada
Da vida: longos anos, presa à minha
A tua mão, a vista deslumbrada
Tive da luz que teu olhar continha.

Hoje, segues de novo... Na partida
Nem o pranto os teus olhos umedece,
Nem te comove a dor da despedida.

E eu, solitário, volto a face, e tremo,
Vendo o teu vulto que desaparece
Na extrema curva do caminho extremo.

05 Março 2009

quatro sonetos

1
eu sou o monstro que cavalga pastos
invisível no meio das boiadas
cortando cercas de arames farpados
e arrancando as bocetas das vacas

no focinho do meu cavalo preto arrasto
as porteiras de sítios mal colocadas
vou mastigando com asco os cascos
dos bodes de pernas fracas

arranco cornos de touros castos
vou fazendo deles minha morada
assim como o bucho das cabras

que fecundo em cada parada
esse mundo apesar de vasto
não tem um só canto que me caiba

2
não tenho amigo imigo ou amada
meus companheiros são os bichos
as putas as cabras as vacas magras
e os cavalos com seus relinchos

sou o monstro que vai em cavalgada
e que entorta currais de moça e capim
destruo as plantaçoes e roçadas
até os ninhos de passarim

quando passo apressado e ruim
até a lua que é cheia se apaga
fica gaga a voz da galinha

quando anunciada a hora do fim
minha cavalgada é em uma mula
muar estéril que crio dentro de mim

3
nas vilas nas paradas nos campos
nos antros de puta e jasmim
tremem nas igrejas os santos
em todos os cantos em todo lugar

o medo bruto é o que se espalha
valha-me deus dizem os ateus
os homens de fé usam navalha
no lugar de ajoelhar e rezar

nas ruas e nas casas de família
as mulheres escondem suas bocas
os poetas ocultam seus versos

os pais protegem filhos e filhas
deus se preocupa com o universo
e o trovão vira uma voz rouca

4
minha mãe era uma vaca parideira
meu pai era um antigo vaqueiro
fui gerado no meio da poeira
e parido no meio do pasto

ambos morreram ao olharem pra mim
monstro de cornos estéril e casto
desde então cavalgo confins
sertões cidades e outras roçadas

lugar no mundo não existe parada
não sinto nada e nada eu minto
minha casa é todo o sertão

e o sertão é o meu labirinto
ser homem para mim saiu caro
mesmo com sangue de minotauro

02 Março 2009

o abel desse caim; o esaú desse jacó; o augusto de campos desse haroldo de campos; o miguilim desse ditinho; o qualquer desse jóia; o harold bloom dessa molly bloom; o moran desse molly; o vladmir desse estragon: irmãos siamesmos;

27 Fevereiro 2009

a poética dos mitos
abro o baralho de cartas.
a primeira é o enforcado. penso em heróis.
penso em ulysses sem deuses,
sem ítaca, sem penélope,
sem ninguém que o espere em ítaca.
sua odisséia acabou e ele se enforca na mesma
árvore que o judas se enforcou. quem sabe?
coloco a carta de lado.
tiro a segunda.
- são três as que lerão minha sorte, me avisam.
a segunda é a roda da fortuna.
me sinto cansado nesse momento.
lembro de filósofos que falaram do tempo.
penso com tristeza no bigode de proust.
talvez deixe o meu igual, considero.
nos dias que escrevo estas linhas, isso é moda
entre os jovens.
tiro a terceira.
é o louco.
não penso em nada.

faltaram a caveira, o cristo, o rei, o dous de paus, o tranca-rua, o zé pilintra, o são longuinho, o cosme, o damião, o castro alves meu bem, e um pouco de crença também.

minha sorte é decidida: faltam-me idéias.
esta foi escrita para os mortos
para quem não acredita
para os que não tem nome

quem ainda tem ilusão
um pouco de fome
não faz mal a ninguém

uma canção para quem
já não é quem.
eu me sinto tão sozinho, você não acredita
eu preciso mandar notícia sobre minha vida
dizer que a vida aqui é fria mas ainda vida
falar para todo mundo que um pouco de ironia
não faz mal a ninguém, eu me sinto tão piada
nessa terra de ninguém, você não imagina
o quanto eu sofro - um dia sim, outro não.

25 Fevereiro 2009

Terra Rica - 5
Lá do muito longe, sabe onde é? Não tanto, perdida no meio disso, fica Terra Rica, Terrinha, Terrarriquinha, Terrica, Trica, qualquer nome chamado que tenha essa ideia ou outra idéia igual. Essa cidade é de minha nascença, em que a gente foi moleque - meu verbo. Terra Rica fica depois dos Campos Gerais, abaixo das Gerais. Lembra o Nortão Velho, pioneiro, paulista, mas é Norte Novo, já desvermelhando e ficando poeirante, noroeste. Quase sem o erre (apenas o R forte), Terra é uma vila-cidade igual velho, que vai diminuindo. Morrer? Morrer não morre. Só acaba.
Perto mesmo Trica é de Guairaçá, de Diamante do Norte, de Ademar de Barros, que são lugares que vão existindo junto com Terra Rica, de mãos dadas com estradas buraquentas, vão resistindo. Deve ter sido bonita, a cidade nomeada Terra Rica. Não por isso, mas dói. Terra Rica é mesmo debaixo do Três Morrinhos. Se Terra Rica acabar, os morrinhos não acabam. Eles sempre vão estar lá, sombreando a cidade. É lá que lá é.
Orgulho sou de ser terrarriquense? Igual brio não tenho o mesmo de morar na capital, na cidade grande, cheia de coisas existindo. Nada disso me alegra. A tristeza de todas as cidades é igual. Toda a gente vai se batendo na vida igual, seja aqui, em Terra ou em outra qualquer banda. Viver é se debater. Conforto não há - ele vai sendo é dentro da gente.
Do pouco que eu contei aqui, esses dias indo, é o pouco que existe lá. Nem mais nem menos que em qualquer lugar em que a vida aconteça. A minha, partes do que vivencio, aconteceu de ocorrer lá, em TerraRica. Assim sendo, assim seja, diz o ditado.
Alegre de não viver hoje dentro do mundozin que Terreca é? Isso sou de montes - três morrinhos de agradecimento de não ser mais terrarricano, de não ser nada, nem, não, orgulho nenhum. É a mesma felicidade de não me prender, e não acreditar nunca. Acreditar em nada e nem ter regras pras coisas serem feitas: é assim que é o Assim. Tudo na vida vai existindo... até acabar: eu sou muito novo no viver pra ter Saudade.
O que que eu quero de terra rica, no meu existir de hoje? Eu quero que ela queime, começando pela maternidade onde eu nasci. Depois pela minha casa. Que queime as cinzas daquelas horas. Que depois meu corpo queime de fogo e febre. Que o fogo de Terrica se espalhe pelo o mundo e queime o mundo. Muito fogo e muita luz - fogo do inferno, luz divina.

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hoje, na folha,
Terra Rica - 4
A timidez encabulada, uma voz em fio que insiste em não sair, prendida dentro da garganta, nózenta; a gente preso na gente mesmo, como se fosse dois. Não sou sabido se ser do interior (e de Terrica, antes de tudo), pequeno, me pegou de ser assim, tão pra dentro, gostador de sombra, de não sair - de nem nunca participar das coisas da vida. Ser do interior faz a gente ser arredio? Bicho? Silencioso? Mas muito disso desse jeito também se deve à Bárbara.
Bárbara foi minha primeira experiência estética - com o belo dela acontecendo na minha frente - e minha primeira experiência com moda (já que tão bonitinha que Bárbara se vestia). Nos idos dias, eu não sabia estética e moda, essas coisas que a gente só se aprende depois, que existem. As perninhas grossas de Bárbara fossem o primeiro livro que eu li. Emoção era o que eu sentia quando via aquelas pernas - douradas, eu acho - saindo dum shortinho tão diferente dos que as moças pequenas, as meninas, usavam em Terra Rica. Bárbara era outra.
A figura de Bárbara era meio forasteira; filha de médico rodador dos Nortões em busca de dinheiro; família nômade, eu acho - não recordo, invento. É que Bárbara tinha um pouco desse jeito do de-fora, desse mistério de quem já viu outras vidas acontecendo, de encantar quem das coisas existentes não sabe muita coisa; de forasteira mesmo, mulher da vida, que absorve sorve a gente, faz a gente querer ser dela, de querer coisas que a gente ainda nem tinha aprendido, isso tudo. Prazeres. Oito anos, só.
Não sei se Bárbara sabia de suas mágicas - nem não imagino de onde surgia sua sabedoria de mulher amadurecida. Nas correrias das molecadas diabas da finada Rita de Cássia, Bárbara ensinava: ‘’Correr? Mas eu posso ir andando...’’. E a gente, os meninos, obedecíamos tanta natureza de ensinar. E Bárbara ia, inventando para mim o desfile de moda antes de eu amadurecer o aprendimento dessa existência. Passarelas? Era o pátio da escola Rita de Cássia, onde Bárbara pisava - e era um pouquinho também meu coraçãozinho.
Foi Bárbara, que muito me ensinou das coisas do existir, que me deu esse jeito para dentro. Foi; sim foi. Foi no dia que eu a chamei pra tomar sorvete e ela aceitou. Chamamento de peito comprimido, com medo. Mas ela aceitou. Ela muito me quis tomar sorvete comigo. O doutor senhor pai dela aprovou. Felicidade era o que tinha dentro de mim - eu era alegre antes de Bárbara existir - quando eu me arrumava para encontrar ela na sorveteria. A melhor roupinha, cabelo penteado demais, na moda. Foi. Fui.
Bárbara não. Nem shortinho, nem as perninhas grossas - nada disso não apareceu. Naturalmente ela não foi. Era natural que não fosse. Do mundo, ela muito tinha que me ensinar sobre as coisas que acontecem dentro da gente. Na sua ausência, muita coisa me foi mostrado por ela; menino chora. Como toda aprendizagem, doeu demais de doído; ela fez eu ser isso, no que eu fosse. Não sei o motivo de sua não ida. Depois disso, minha memória muita não há, só a risada maldosa dos meninos invejosos. Ah, Bárbara, agora eu sei por que o diabo te deu esse nome...

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ontem, na folha,

19 Fevereiro 2009

Terra Rica - 3
Tem lugar que o chamamento é piá; há local que guri é a palavra pra dizer; em Terra Rica, o nome de chamar menino pequeno é moleque. Se se perguntasse "Quem tá lá?" "Tá toda a molecada" se se respondesse e a gente sabia que estava. Muita molecada existente, isso é que era em Trica. E a gente lá no meio, sendo mais um. Era uma legião de molecada, sempre juntada, sempre separada.
Dentro de Terrarriquinha, havia a reunião da molecada dentro do clube, da Piscina, como era como a gente chamava o clube de Terra Rica. A Piscina era um mundozinho dentro do mundinho que era a cidade. Era lá que acontecia tudo - tinha a escola Rita de Cássia também, mas nessa não havia campo de futebol. Mas ninguém falava jogar futebol, assim como ninguém referia piá à moleque. Lá era molecada que era e a gente jogava bola - a gente sabia das coisas.
Golzinho, gol-a-gol, rebatida, estirão, linha, classe, de-salão, de-campo, dois toques, paredão, campeonatim, dibrinha; a gente nomeava esses nomes, sem nem saber o que deveriam significar. Todo dia: o futebol era nossa religião, nossa santa missa, nosso jeito de saber que Deus existia, sem nem pensar n’Ele. A gente que era ruim, gol era milagre. Todo sempre era isso (e acabou): Ia para Rita de Cássia, ia pra casa engolir qualquer comida, ia pá Piscina jogar bola. As bicicletas, essas ficavam montoadas, embaralhadas na entrada. A bola, o primeiro chegante pegava emprestada do clube - mas tinha que devolver; quem chutava pras vacas tinha que pular cerca pra buscar.
Ia todo mundo: o Hélinho, um gordão-balão de dente roente; um outro que era descendente de árabes e bonachão e engraçado mas briguento quando chamavam o nome da mãe dele de besteira por que ela era finada; dois irmãos gêmeos que diziam tomar gardenal pra não ficarem loucos; o filho do prefeito, que era um bom amigo magrelão alto; o Eltim, com sua mão birruguenta; o irmão dele, com sua cara caveiral, soturno; às vezes, até o Ditão (hoje já é morto ele), que era um preto que não era sócio da piscina, ia, pulando o muro, escondido do porteiro, entrando no meio das outras molecadas.
Era jogo, era briga. Porrada também. Amizade marcada a ferro e guerra, é assim que existe amizade de moleque. Amigo é também imigo, zangão, hoje é aperto de mão e amanhã é ferrão, ferroada, zoação zuada. Assim que é e assim que tem que ser sendo. Amizade de escolamento.
Nessa guerra, assim que os dias passavam, e passaram, numa simplicidade simples, doída mesmo de lembrar. Que é que tudo acontece, meu Deus? Eu nem não num sabia - imaginar? nem sabia da existência dessa criação - mas felicidade era (ainda é) marcar um gol no jogo dos meninos grandes.

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ontem, na folha

17 Fevereiro 2009

Terra Rica - 2
Em Trica, outro doido que andava pela rua eram dois: o Casal 20. Desses também se falava e a gente via. O tempo para eles, passar é que não tinha passado. Ele usava calça boca-de-sino, bigode, costeletas, camisas estampadas abertas até meio-peito - ‘’é do tempo da discoteca’’, a gente poderia ter falado se a gente soubesse das coisas do mundo, de outras ilhas. Ela tinha uns vestidinhos de menina-moça antiga, daqueles rendados, branquinho e de rosinhas salpicando em meio ao todo. Era sempre a mesma roupa, sempre sujenta, a mesma briga sempre é que era. Não se largavam o 20 e não paravam de brigar, de dicustir, de falar alto para se ouvir do outro lado do muro? Não. ‘’Ó-o-Jaisão-aí-ó’’, falava a meninada, já correndo pra ver. Com eles não se mexia, ou se mexia pouco: eles eram só pra ver mesmo a doidice acontecer sozinha.
O Casal 20 não lembro de qual era a história deles. Da boca da molecada o que se ouvia era que eram mãe e filho - ela era velha, ele mais novo -, que eram amantes, que eram um monte de coisa. O nome dela eu não lembro - Dona Maria, talvez - o dele era Jaisão, Jairzão, Jasão (agora eu sei que é nome de herói grego, mas em Trica não entrava nem Argo, nem Ítaca). A Dona Maria morreu faz tempo, e agora o Jazão anda sózim, mas não menos doido, já que ficou com a doidice da mãe de herança. Herdagem de doidura, pois bem.
Outros doidos (porque é diferente ser doido de ser louco) existiam - e ainda hão - em Terra Rica. Tinha o Figuinha, que era meio anão e tinha uma barriga enorme e umas orelhas pontudas, quase de lobizhomem. Sua sandice não sei, então não posso falar. O Ney não era doido, ainda que se dissesse que era. Ele era retardado (maldosidade que se falava e que hoje não pode), mas pra o povo de lá, coisica qualquer na cabeça e pá!: doido. O Ney tá vivo, ainda, mais lúcido e sabido que nunca. Não envelheceu nada nem.
Mas doideca, doidiva mesmo era a Creusa, que era louca porque o doutor Umberto tinha dito (não sei se foi ele que disse e se foi dito mesmo, mas acho que a história fica mais História com esse dizer). A Cleusa morava perto da casa da vó, tinha corte de cabelo, cabelo preto, de menino, era uma menina doce, mesmo sendo velha, e falava mais que o homem da cobra. Nem ser doida ela não parecia muito não que era. Ainda assim, nem sei se ela foi Mulher.
Essa ninguém mexia, já que a gente sabia que era doida mesmo. Todo mundo gostava dela. Um dia a gente mexeu sem saber - para saber se era verdade sua loucurice. Pra Cleuza doidar, era só gritar ‘’Ô-pé-de-abacate!’’, o quê que ela endoidava de ouvir isso. Saber a gente não sabia o motivo. A gente falou isso só uma vez para ela. Não precisou muito pra ela desatar, desatinar mesmo, perder o tino muito. Nunca mais chamamos, mas naquele verão ela que ficou sendo, pra-sempre, a Pédiabacate.
A Creusa morreu esses tempos, dissessem. Como morava só sozinha, demorou três dias pra feder, para que então dessem falta de Creuza. Em Terra Rica é assim, a doideria tá na rua, cada-um-por-si. Cada terra, rica, vai tendo, criando sua mitologia. Viver tem dessas coisas. Doideca demais.

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na folha, hoje,
Terra Rica - 1
Doidice demais. Estar vivendo tem dessas coisas, idéias, ideias, ideais. E relembranças também. A vantagem de se ter uma meninice em cidadezinha é que a gente nem precisa saber das coisas do mundo de lá-fora. Em cidadinha, não tem essas coisas de do-mundo, tem só a gente encerrado na gente mesmo, do interior - nos meus idos tempos não tinha o mundo, só aquele micromundo, mundozinho, mundinho, mundim. Em Terra Rica, terra minha de nascença, o bom de se viver lá é saber quem é quem - as prostitutas, os ricos, os artistas, os doidos. Em cidadeca, a gente sabe das pessoas de ver na rua, de ouvir estórias e encontrar na a Avenida.
Lá em Terra Rica, a gente via os doidos andando na rua, sabia da suas sandices, ainda que não visse as doideiras. Uma galeria de lunáticos, isso que tinha lá. As pessoas falavam e a gente, criança, ouvia - acreditava; quem mais falava as histórias eram os moleques.
A Neuza Doida subia e descia a avenida de bicicleta; bicicletava o dia inteiro. Chamar a Neusa de Neuza Doida não podia, que era aí que ela endoidava, ensandecia mesmo e saia correndo atrás de quem falasse. Toda a molecada já tinha feito isso, gritado "ô-neuzadoida!". Ver fazer chamar de real, visto ninguém tinha. "Eu também já chamei", mentia.
Neuza era doida por que tinha matado o pai, a mãe e mais - não lembro, invento. Tinha matado de faca, facão, tudo num dia só. Era o que se falava - é o que eu me lembro. A Neuza Doida tinha - tem - uma cara amassada, assim, de se estranhar. Não sei se sabe rir com boca sempre pintada de rubro sangue, cor do sangue da família - mas isso os meninos não inventavam. Sem sorrisonho, só pode ser sandecida, sei. Cara de maluca, isso sim.
Neuza Doida é só a primeira das doidas da minha cidade. Depois eu vou contando.

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, na folha, semana passada,
O ciclope
um só olho
um só fio
de cabelo
um piolho
para coçar.
nenhum cílio
nem um filho
nem história
para contar.
é tão sozinho
o ciclope
não recebe
nem carta
em envelope;
é tão triste
o ciclope
a vida passa
num galope.
mas tem um olho,
esse monstro,
tão imenso
que às vezes penso
que o tempo
cabe ali.

02 Fevereiro 2009

"Lá ia Miguilim, retardoso; tinha medo de cobra. Medo de morrer, tinha; mesmo a vida sendo triste. Só que não recebia mais medo das pessoas. Tudo era bobagem, o que acontecia e o que não acontecia, assim como o Dito tinha morrido, tudo de repente se acabava em nada. Remancheava. E ele mesmo achava que não gostava de ninguém, estirava uma raiva quieta de todo. Do Pai, principal. Mas não era o Pai quem mais primeiro tinha ódio dele Miguilim?"

João Guimarães Rosa. Manuelzão e Miguilim.

27 Janeiro 2009

Câncer - 7/7
O dia 16 de junho de 1904 não significa nada para quase todo mundo ainda que signifique muito para muita gente. Há quem aniversaria no dia, mesmo que, acredito, muitas poucas pessoas que nasceram na data e no ano ainda estejam vivas. (Se alguém ler este texto e souber alguém que tenha nascido em 16 de junho de 1904, entre em contato comigo, por favor; alguém que tenha nascido antes, venha até mim, pelo amor de Deus, gostaria muito de saber histórias daquele dia, ouvir memórias daquelas horas. - Estava sol nesse dia? Quantas emoções você sentiu? Que outros detalhes me pode contar?).
A escolha da data, do mês e do ano não é acaso, ainda que tenha sido quando aconteceu. Eleita para fechar o ciclo "Câncer", que venho publicando descompromissadamente, tampouco. Desse dia - 16 de junho de 1904 - sei de muita coisa de Bloom: lembro do aroma de fígado que saiu de sua boca depois do café da manhã; recordo a descrição dos cheiros quando ele anda pela rua; de seu afeto por Dedalus, do ciúmes e amor por Molly, etc. Ainda assim, não lembro e não entendi muita coisa. Falo de "Ulisses", o livro de Joyce.
Cito o cânone literário não para ser amostrado (gíria comum no Nordeste, mais especificamente em Recife, para definir quem quer aparecer), ainda que também o seja - mas só de certa forma. Cito a obra pois uma lenda (ou verdade) a ronda e me emociona por demais. Diz-se que o livro, o maior escrito no século XX (se não o compararmos, por exemplo, a "O Som e a Fúria", de Faulkner, a "Grande Sertão: Veredas", de Rosa, a "Esperando Godot", de Beckett, a "Ficções", de Borges, ou outros, etc.), foi pensado por Joyce como uma presente para sua mulher e que data de 16 de junho de 1904 foi o dia em que se encontraram pela primeira vez. Se há um presente maior de um homem para uma mulher que "Ulisses", eu não conheço. Não sem inveja, gostaria eu de tê-lo dado de presente à minha amada - e, de quebra, à humanidade.
Essa história, mesmo que mentira, é tão bem inventada como a própria história do livro. Desconfio que Joyce (ou então deus) a tenha inventado. A história da história (ou lenda) foi a melhor forma que encontrei de negar tudo que escrevi antes, nos outros seis textos, e dizer (ao modelo de Molly Bloom) Sim.

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na folha, hoje,

23 Janeiro 2009

Câncer - 6/7
A maior sensação do mundo foi sentida por apenas um homem: eu não ligaria de ser crucificado agora, se eu fosse o Cristo. Imagino que, ao terceiro dia, Ele abra os olhos, sereno, vindo de um sono sem peso, despertando como quem acabara de adormecer. Não sente as chagas; a coroa de espinhos não fura Sua testa nem se enrosca a Seus cabelos; a dor das lanças penetradas entre costelas se dissipou. O gosto amargo na boca - o fel vindo do vinho - se tornou apenas um doce gosto de manhã. A lembrança do que padeceu é difusa, sem importância: para o ressuscitado, só o futuro importa.
De tudo na vida, outra única certeza (que concorre com a de que se vai morrer) é a de que nunca apenas um homem poderá ter em seu corpo todas as experiências. Eu lamento. Lamento, por exemplo, não ter um câncer bestial e ser curado - experimentar a sensação do milagre; ter um câncer e morrer sem forças; ter um câncer e resistir; e também felicito por não ter um câncer, de fato. Não se pode ter tudo. É um terreno perigoso, esse de se desejar todas as coisas: dá medo - por isso defendo o contentar calado.
Pela literatura ou outras expressões, pode-se ter experiências - que são apenas imaginadas, mesmo que emocionem. Ainda assim, nunca fui queimado vivo como uma bruxa em Sodoma, nunca marquei um gol em uma final de Copa do Mundo em Paris (talvez a experiência mais fantástica do mundo para um brasileiro), nunca fui acusado de roubo em Constantinopla, nem perseguido por um híbrido em Creta, nem fui jornalista humilhado em Dublin, muito menos imperador em reinado qualquer. Não acredito em reencarnação ou eterno retorno - apenas na ressurreição de um único Homem, mas apenas talvez.
Reviver do reino dos mortos deve ser a maior das sensações, mas todas as outras não devem ser menores. Meu amor não pode ser menor que ressurreição do Cristo, nem meu suor. Eu como homem no mundo não posso ser menor que isso, nem minha existência, mesmo que medíocre, pode. A vida vivida não pode ser menor que a existência de Deus. A afirmação mostra o que vem adiante.
P.S.: Vai-se morrer, tem-se certeza disso, e a morte, no entanto, é uma experiência que não se pode ter. A constatação não é minha.

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na folha, hoje,

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