estudo
(isso não é um poema é só uma colação de imagens e ritmos)
a beleza na película em chama:
a curva inferior dos seios.
a locação: a nossa cama.
a ação: eu segurando teus braços
com apenas uma das mãos;
tu te fazendo de tola
rindo que sim e gritando que não.
com o que me sobra - a outra mão -
fotografo teu corpo de perto.
perverso, ocupo cada canto da tua visão
dizes que não mas sabes o certo
enquanto minha câmera sem direção
faz clique clique do paraíso
tu gargalhas e eu te eternizo
quando tu gritas, histérica:
'deixa meu seio, demônio,
saia do meu meio, satã'
- ainda que sejas santa
só amanhã, só amanhã - respondo.
(deus do céu, somos poetas)
registro a circunferência secreta
dos teus braços esticados
os dedos decimais sobre a testa
e esta lançada para trás
como se jogada em um fosso:
a veia e o músculo do teu pescoço
o queixo apontando o infinito
os dentes saltando os lábios
mostrando um riso que se ri
da idéia absurda do mito.
fotografo tua anca forte
para exibir teu porte de animal
és afinal uma potra
que me permites sem pudor.
ficamos afogados nesse mar
e nos esquecemos de perguntar
sobre essa vida de tanto mal
tanta violência e tanto amor.
sou mesmo isso que estás vendo:
um monstro que cavalga matas
que te mata sem nenhum receio
que invade teu sono de princesa
que viola teu corpo sem defesa
que amola tua lâmina sem defeito.
ser tudo isso não é menos:
picoto tuas perninhas arqueadas
quebro teus dedinhos de tocar piano
e te faço ingerir veneno.
com brasa deixo tua face marcada
de desenhos que não sei fazer
faço isso toda hora todo ano
em qualquer momento e por prazer
tua cabeça de medéia deixo boiando
no mar da solução sulfúrica.
há ainda a imagem dos teus joelhos
sendo quebrados com uma marreta
e todas as caretas que fazes
quando penduro o teu ovário
na mesa do presidente do plenário.
sábio, dizem por um momento
teus lábios cheios de preenchimento
e descolados da mandíbula.
então eu olho para o chão.
lá estão os pedacinhos das fotos
das tuas fotos que eu fiz
em noites de amor e fúria.
olho para a locação e não estás
não há ninguém no box do banheiro
e nem há boca de botóx ao telefone
nem ninguém com enorme fome
segurando a porta da geladeira aberta
não há mais pernas abertas
nem um sono ou mulher desperta
não há o beijo na boca que escarra
nem boca para despejar palavras de ódio
nem para consumir ópio ou exibir marra
só restam as fotozinhas no chão
que não posso nem enviar, anônimo,
para um site de prostituição.
tento então colá-las quem sabe
quem sabe quem sabe quem sabe
o quebra-cabeça é divertido
nele cabe cada canto de você
vez ou outra até solto riso
(deus do céu, que grande farra)
enquanto isso o ponteiro pára
termino minha obra sem tema
não tem minha cara
e não tem tua cara
é só um rascunho de poema.
30 Junho 2011
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