naufrágios
os plânctons grudados no casco
de um navio naufragado
denunciam-lhe o tempo de paz.
é um navio de madeira, parece.
não podemos saber-lhe a época
nem por quantas mãos foi construído
(as mãos que constroem casas
que violam hímens que inventam deus)
buracos no casco nos fazem imaginar
que balas de canhão pirata
furarem-lhe a carne
abriram grandes buracos no navio
foram responsáveis pelo afogamento de marujos
pelos gritos que nós
da terra
nem imaginamos o som do terror
nem o tom de mau agouro.
quanta história tem um navio submerso,
não dimensionamos
no entanto
qual mente perversa inventou-lhe o destino:
não é a nave de ahab batizada de pequod
não sabemos se buscava um kurtz lunático
ou se trazia entre os seus
- trazia para nossa redenção -
aquele de nome chamado odisseu
(mas os nomes já não nos importa
quando somos escombros).
no fundo do mar
- símbolo do assombro -
um navio fantasma jaz
feito os mortos que lutam na terra estéril
e não sabemos nós
quanto lhe resta de luz
quanto lhe acalma a sombra abissal
nem qual a terceira pessoa da trindade.
esta é a imagem ideal de tudo:
tudo o que não devemos acreditar.
no oposto - no oposto que é o mesmo lado -
nós também os temos:
furos enormes na pele
e nem sabemos de onde vieram
não sabemos se fomos nós mesmos
quem provocamos essas feridas
ou quais impulsos cerebrais
as produziram.
só sabemos que elas existem
e que nós não descamamos no fundo do mar.
04 Agosto 2011
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