21 Dezembro 2011

um apito
ninguém notou o meus dentes quebrados
tampouco viu quando eu sorria para mostrá-los

agora eles estão lá
repousando no fundo de uma boca trancada
cerrados dentro de uma gaveta banguela

pense em um mundo onde já não há saliva
o beijo é negado
o cuspe é negado
também o é o escarro
essa boca de garganta seca
(onde nem o grito é possível)
é a casa de meu dentes quebrados

devo dizer que eles não doem
que minha gengiva não sangra
que nem as cáries brotam mais
eles só tilintam quando se chocam
tocando a marcha fúnebre das ondas

vou correr para esconder meus dentes
no mar
vão descansar bem no fundo da areia
e em um ano futuro do senhor
uma criança há de encontrá-los
e esta criança (uma menina talvez)
vai rasgar sua pele
nessas conchas tão engraçadinhas

em um mar tão perto tão longe
lá em cima um navio apita

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